Felipe Sampaio
27/03/2025 - quinta às 11h18
Empreendedorismo não é assunto novo. A primeira vez que vi o termo foi nos anos 1980 quando, entre os best sellers da época (como Marketing de Guerra ou a biografia do Lee Iacocca), encontrei algo novo no livro Entrepreneuring, do Brant Steven. O ensaio apresentava um novo ator do mercado – o empreendedor: aquele sujeito que parte para abrir seu próprio negócio disposto a produzir algo diferente, ou de modo diferente, talvez para alguém diferente, ou até em um lugar diferente.
Naquele balaio cabiam negócios de todo tamanho, desde uma antiga costureira de bairro a até mesmo uma Apple (que começou na garagem). Pouco tempo depois li o premonitório Paradoxo Global, onde Jonh Naisbitt alertava que, quanto maior a econômica mundial se tornasse, mais importantes seriam seus participantes pequenos, fossem nações, empresas ou mesmo indivíduos.
Durante os anos seguintes, trabalhando na Cervejaria Brahma (AMBEV), aprendi que era possível haver empreendedorismo até mesmo num departamento de uma empresa consolidada, porque empreender era, antes de mais nada, um mindset. Confirmei essa impressão ao ler o provocativo Intrapreneuring, de Gifford Pinchot: “Você não precisa deixar a empresa em que trabalha para ser um empreendedor”.
Troquei o ambiente dinâmico e criativo da AMBEV pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, me questionando se era possível empreender em um órgão de governo. O então ministro Raul Jungmann me convidara para criar uma marca, ou selo, que identificasse os produtos provenientes de assentamentos. Nem completei um ano no ministério, mas deu tempo de perceber que sim, principalmente em um órgão público, é imprescindível adotar uma atitude empreendedora.
Foi o que aconteceu quando, em uma conversa rápida com a ministra Dorothéa Werneck, então presidente da agência APEX Brasil, identifiquei uma chance de criarmos um projeto de exportações da agricultura familiar. Dito e feito, formulei e implementamos o projeto tendo a Fundação Lyndolpho Silva como hospedeira, em parceria com ongs italianas, com o apoio da Embrapa e do movimento sindical rural (Contag).
Acontece que o empreendedorismo é um caminho promissor e relevante para os indivíduos, para a sociedade e para o País. Para isso, não basta o sujeito abrir um pequeno negócio qualquer, tampouco uma empresa trocar postos de trabalho CLT pela contratação de uma microempresa ou de um MEI. Para que o empreendedorismo realize seu potencial de renovação e desenvolvimento da economia, é preciso que haja inovação, criação de valor, foco no crescimento do negócio e investimento. Isso só é possível se o empreendimento for apoiado pelo Estado e, mais do que isso, se esse Estado também tiver perfil empreendedor.
Desse modo, a política pública conseguirá acompanhar a agilidade do mundo real, bem como terá capacidade de interpretar cenários, para proporcionar o apoio adequado para que o empreendedorismo vença preconceitos e se estabeleça como alternativa de renda e de prosperidade para as pessoas, e como vetor de desenvolvimento para a coletividade e a região, de forma competitiva, resiliente e sustentável.
Fica a dica que os governos e prefeituras se aproximem de hubs de inovação e empreendedorismo, como o Porto Digital, CESAR, Instituto 12, Endeavor, Rede Mais, Instituto ITAUSA, Arapyaú, Fundação CERTI e TECNOPUC, para formularem conjuntamente políticas e programas para o setor.
Felipe Sampaio: cofundador do Centro Soberania e Clima; atuou em grandes empresas e no terceiro setor; chefiou a assessoria especial do ministro da Defesa; dirigiu o sistema de estatísticas no ministério da Justiça (SINESP); foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; é chefe de gabinete da secretaria-executiva no Ministério do Empreendedorismo.
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