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Economia: os EUA precisam urgente de um inimigo

Felipe Sampaio

21/02/2025 - sexta às 11h48

Essa paquera entre o Trump e o Putin vai criar um problemão nos Estados Unidos. Se o namorico virar união estável, Trump pode enfrentar um divórcio com a colossal indústria de defesa dos EUA, que vai chutar o balde em Mar-a-Lago para que ele arranje rapidinho outro inimigo que justifique o nível de gastos federais com armamento, tecnologia e contratos.

 

Afinal de contas, o PIB de defesa do Tio Sam chega a US$1,5 trilhão (em um PIB global de defesa que passa dos US$ 2,5 trilhões). Acontece que essa gastança é bancada principalmente pelo governo americano, cujo dispêndio militar beira US$1 trilhão. Ou seja, dois terços do que se produz é para consumo próprio. Dito de outra forma, amparados pela ideia de que “se queres a paz, prepara-te para a guerra”, o século XX foi muito lucrativo.

 

Não era à toa que o então presidente Dwight Eisenhower não escondia seu desconforto com a influência das empresas de defesa sobre o Executivo e o Congresso americanos. Eisenhower sabia o que estava dizendo, porque serviu na II Guerra Mundial como Comandante Supremo das Forças Aliadas no front europeu. Chegou a dizer que as empresas de defesa americanas eram “um inimigo” mais preocupante do que os soviéticos.

 

Durante a II Guerra, as empresas americanas encheram o bolso com as encomendas militares de todos os aliados, inclusive da União Soviética que inicialmente adquiriu veículos, tanques e aeronaves dos EUA. No pós-guerra, os países da Cortina de Ferro tornaram-se o inimigo preferido, contra o qual a democracia ocidental deveria se armar. O arsenal nuclear, a aviação militar e a marinha de guerra de Washington alavancaram o faturamento do setor naquele período, elevando a sua participação no PIB nacional.

 

Contudo, desde o desmoronamento da União Soviética, esse peso da receita de defesa na economia dos EUA veio diminuindo. Só voltou a crescer temporariamente a partir dos atentados do 11 de setembro, porque Bush Filho providenciou novos inimigos, como Osama Bin Laden, Saddam Hussein e o Talibã, para alívio do caixa dos armeiros que o elegeram.

 

Mais recentemente, na falta de conflitos significativos, a recuperação do faturamento da defesa perdeu velocidade e vem se estabilizando nos últimos anos. Talvez, por isso, Joe Biden tenha chegado a propor que as mudanças climáticas entrassem na agenda do Conselho de Segurança da ONU, como fator crítico para operações militares. Porém, nem essa carona no aquecimento global foi suficiente para esquentar o ânimo orçamentário do Pentágono e da OTAN.

 

Nesse cenário morno, a guerra da Ucrânia não chegou a ser um alento para o mercado de armas (mesmo com as doações da Casa Branca a Zelensky). Pior ainda agora, quando Trump e Putin, juntos, dão o tiro de misericórdia na moribunda Guerra Fria. A nova amizade representa não apenas uma redução das necessidades de gastos militares dos EUA e da OTAN como, também, um esfriamento do esforço de proteção das rotas do comércio global pela frota americana onipresente.

 

Se Trump não encontrar rapidamente um oponente à altura da Rússia para sustentar a sua indústria bélica, poderá experimentar na pele os alertas do velho General Eisenhower. Um bom adversário externo é sempre mais confiável do que ter o empresariado de defesa como inimigo íntimo. A China – candidata natural – não parece interessada em morder a isca.

 

 

 

 

 

 

 

Felipe Sampaio: cofundador do Centro Soberania e Clima; atuou em grandes empresas e no terceiro setor; chefiou a assessoria especial do ministro da Defesa; dirigiu o sistema de estatísticas no ministério da Justiça (SINESP); foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; é chefe de gabinete da secretaria-executiva no Ministério do Empreendedorismo.

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